domingo, 18 de janeiro de 2009

A triste realidade da jabuticaba-branca


A primeira pessoa a usar o nome jabuticaba-branca foi Auguste de Saint-Hilaire, botânico francês sobre quem já falamos no post do dia 21/09/2008. O naturalista anotou: "Vimos que havia em Itabira de Mato Dentro jabuticabeiras de frutos negros e de frutos amarelos, e, se minha memória é fiel, existe uma espécie que se designa pelo nome jabuticabeira branca, ou, pelo menos, cujo fruto se chamaria jabuticaba branca". (Saint-Hilaire, A. 1975 [tradução do original de 1830]. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia. 378 p.).

Em 1877, quase 40 anos depois, o então diretor de Parques e Jardins, Auguste Glaziou (ver texto do dia 22/11/2008) colheu amostras de uma arvoreta chamada de "jaboticaba branca" entre as localidades de Sete Pontes e Barreto, atualmente área urbana de Niterói (RJ). Esta planta foi batizada de Eugenia phitrantha por Kiaerskou em 1893, porém ela raramente produz frutos brancos (verdes). São, em geral, cor-de-vinho ou quase negros, razão pela qual a espécie é mais acertadamente chamada de jabuticaba-branca-vinho.

Na metade do século XX, o botânico Frederico Carlos Hoehne escreveu que o fruto da mirtácea Gomidesia reticulata se chamaria "jaboticaba branca". Cabe aqui informar que todas as gomidésias produzem frutos em panículas (algo como um "cacho de cachos"), nunca agarradas nos troncos ou ramos como as verdadeiras jabuticabas. O próprio Hoehne reconheceu isso, ao acrescentar que esta árvore nunca deveria ser agrupada entre as jabuticabeiras.

Porém a confusão estava feita e, a partir daí, vários autores de livros sobre plantas passaram a invariavelmente usar o nome científico Gomidesia reticulata para toda e qualquer jabuticaba que não se tornasse escura ao amadurecer.

Coube ao glorioso João Rodrigues de Mattos (sobre este pesquisador, veja o artigo do dia 26/09/2008) separar alhos de bugalhos. Em 1962, ele estudou uma jabuticabeira nos pomares da ESALQ com uma placa de identificação onde se lia "nome científico: Gomidesia reticulata - nome popular: jaboticaba branca". Descobriu que correspondia exatamente à espécie colhida por Glaziou, rebatizada de Myrciaria phitrantha por não se tratar de uma eugênia.

Finalmente, em 1976, Mattos descreveu uma jabuticabeira bem semelhante à anterior, só que de porte menor e de folhas mais estreitas e um tanto mais curtas. Os frutos por ele observados eram sempre verdes (ou brancos), mesmo quando completamente maduros. O material estudado foi colhido em 1963 por Áurea Bordo, funcionária do Instituto de Botânica. Em homenagem à coletora, criou o epíteto de Myrciaria aureana, hoje reconhecida como a "verdadeira jabuticaba-branca".

A origem da jabuticaba-branca por muitos anos permaneceu um mistério. Mattos informou que era de "procedência ignorada, cultivada em São Paulo". Foi somente em 2007, graças aos esforços de Harri Lorenzi (Instituto Plantarum) e colaboradores, que se soube que M. aureana é uma planta muito rara na Mata Atlântica, encontrada ao longo do Rio Doce e na Zona da Mata mineira.

Semana passada, localizamos uma população desta espécie em meio a um resquício de floresta que vem sendo dizimado para produção de carvão vegetal, visando o abastecimento de um complexo de olarias na região do médio Rio Doce. A foto que encabeça estas linhas muito bem ilustra o lastimável fato.

No próximo post, contarei detalhes.

4 comentários:

Antonio disse...

É uma pena. Procurei por muito tempo obter mudas de jabuticaba branca. O uso de espécies nativas na carvoaria é muito pouco produtivo devido ao tamanho dos troncos e ao crescimento lento na maioria dos casos. No entanto é o caminho mais fácil dos oportunistas, que não querem ter trabalho nem perder tempo plantando espécies mais adequadas. O lado triste é que esta prática ainda continua comum nos dias de hoje, sem qualquer fiscalização.

Eduardo Jardim disse...

Infelizmente a situação é esta mesmo. O pior é que nem ligam para espécies silvestres como a jabuticaba-branca. Em breve postarei a segunda parte da história.

Anônimo disse...

Onde consigo mudas desta jabuticabeira.

Obrigado por fazer um artigo demonstrando esse problema do desmatamento para uso na carvoaria.

Eduardo Jardim disse...

Olá, amigo.
Mudas de jabuticaba-branca são comercializadas em nosso site, www.e-jardim.com. Você pode nos contactar através o e-mail de contato que está no site. Teremos o maior prazer em atendê-lo.