Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

El mamey colorado!


Popol Vuh é o livro sagrado da civilização maia. Algo como a Bíblia daquela outrora florescente cultura centro-americana. Entre outras assertivas, traz a de que as sapotas (tzapotl) são frutas tão antigas quanto a criação do homem americano.
Sapotas eram também as frutas que deliciavam os grandes senhores maias, antes da chegada dos conquistadores espanhóis. Aplicavam, de uma maneira geral, o termo a diversos frutos carnosos e doces que cresciam em seus domínios.
Entre estes, sobressaía o delicioso mamei ou sapota-mamei ("mamey colorado" ou "mamey zapote" em espanhol). Por muitos considerado a verdadeira "sapota dos maias", será o tema de nosso post de hoje.
Aliás, contam os historiadores que foram os mameis que salvaram os exércitos espanhóis de inanição, quando em campanha de conquista das terras meso-americanas.
Sua casca marrom e áspera como couro cru, de pequena espessura, encerra uma polpa cremosa e macia, de linda tonalidade vermelho-róseo-salmão. Em seu interior, há uma semente única, escura e muito brilhante, contrastando fortemente com o tom da carne, conforme mostra a imagem que acompanha estas linhas.
Esta semente também é muito valorizada, pois torrada e moída é misturada a chocolate, açúcar e canela, em uma bebida conhecida como "pozol" em Oaxaca, no México. Na Nicaragua prepara-se outra denominada "pinolillo", de grande popularidade e formulação similar.
Degustar um mamei é uma experiência única. Cortado ao meio e comido às colheradas, deixa a boca repleta de uma doçura persistente. Algumas pessoas gostam de equilibrar com algumas gotas de limão, como se faz com o mamão-papaia e o abacate. Já outros preferem reservar a iguaria para o preparo de requintadas sobremesas (há muitas receitas!). Não importa, um apreciador de frutas não pode deixar de experimentar uma sapota-mamei...
No Brasil, esta fruta foi introduzida em 1985, por iniciativa do pesquisador Luiz Carlos Donadio [Donadio, L. C. et al. 1998. Frutas Exóticas. Jaboticabal, Funep. 279 p.], que através de um convênio entre a FCAV-UNESP e o Cenargen-Embrapa importou matrizes da Flórida. Adaptou-se muito bem a uma vasta diversidade de climas tupiniquins, desde os tropicais até os subtropicais, como São Paulo e alhures.
E em seu pomar, já há um mameizeiro crescendo?
Mais informações e mudas disponíveis em:

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Billbergia iridifolia, uma jóia do Espírito Santo


No início dos anos 90 do século XX, eu costumava percorrer lojas de livros usados (os chamados "sebos") à procura de boa literatura. Minha seção favorita era a de história natural, particularmente botânica. Foi assim que achei os volumes originais do "Dicionário das Plantas Úteis do Brasil", de Manuel Pio Corrêa, entre outras preciosidades.
Em uma dessas buscas deparei-me com um livro de capa dura azul, publicado em 1945, trazendo o curioso título de "Brazil: Orchid of the Tropics". Versava sobre as peripécias de um casal de americanos, Mulford Bateman Foster e Racine Sarasy Foster, coletando plantas (principalmente bromélias) no Brasil, entre 1939 e 1940. Mais: a publicação ostentava cerca de 150 fotos (a maioria em preto-e-branco) tiradas pelos autores durante sua trajetória.
Desnecessário dizer que a adquiri de imediato, e logo pus-me a devorá-la. Fiquei encantado com o mundo novo que o casal Foster me revelava, em palavras e imagens, de plantas espetaculares que eu jamais imaginava existir nas florestas e campos do meu próprio país.
Em mais de 45 capítulos curtos, os autores discorrem sobre diferentes ecossistemas nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso. Colheram, neste percurso, muito mais espécies novas de bromélias que qualquer outro coletor antes deles - aí incluídos nomes sagrados como os de Glaziou, Ule, Riedel, Dusén, Gardner e Burchell, além do próprio Martius (em cuja viagem, de 1817 a 1821, foram descobertas 39 novas espécies de Bromeliaceae).
O entusiasmo que os autores passam em sua narrativa contagia qualquer leitor com afinidade por plantas. Basta dizer que Mulford, um dos primeiros arquitetos-paisagistas da Flórida, fundou em meados do século XX a "Bromeliad Society International", e é considerado o "pai das bromélias" na horticultura moderna. Além das últimas, os Fosters dedicaram especial atenção aos Hippeastrum (açucenas), gesneriáceas (Sinningia e gêneros próximos), cactáceas epífitas (Rhipsalis, Hatiora e outras), e em menor profundidade às orquídeas e palmeiras.
No capítulo "Espírito Santo, State of the Holy Ghost", mencionam o encontro nos arredores de Cachoeiro do Itapemirim de doze espécies de bromélias, entre elas "a lovely new variety of Billbergia, B. iridifolia var. concolor". Embora tivesse sido descoberta pelo Príncipe Wied-Neuwied e descrita pelos botânicos Nees e Martius em 1823, esta espécie era antes dos Fosters desconhecida em cultivo.
Foi uma grata surpresa deparar-me, no início de 2007, com esta jóia botânica nas florestas do baixo Rio Doce, em Linhares (ES). Apresento aos leitores as vibrantes cores situadas entre o rosa-choque e o vermelho das brácteas desta belíssima espécie.
Forte abraço!

Domingo, 7 de Junho de 2009

Azul nos trópicos

O camarão-azul (Eranthemum pulchellum) é um dos poucos arbustos que proporcionam abundantes flores de coloração azul-genciana em regiões tropicais

A família Acanthaceae inclui alguns dos mais belos arbustos floríferos do mundo. São plantas de rápido crescimento, em geral rústicas, e que se prestam de forma admirável para cultivo em canteiros, bordaduras ao longo de muros e mesmo como pontos de destaque em jardins.
Tome-se o exemplo dos onipresentes "camarões-de-jardim", Justicia brandegeana (camarão-vermelho) e Pachystachys lutea (camarão-amarelo), tão usados pelos paisagistas hoje em dia. Cores vibrantes, como as precedentes vermelha e amarela, são lugares comuns em climas quentes. Nestas condições, há uma recorrente dificuldade em encontrar-se elementos no tom azul. Nosso post de hoje destaca uma honrosa exceção, o camarão-azul.
Esta espécie de singular beleza foi descrita em 1797 por um botânico inglês de nome Henry Charles Andrews. Com habilidades múltiplas que incluíam talento botânico e dom artístico, e recém-casado com a filha de um famoso viveirista em Hammersmith (subúrbio de Londres), Andrews iniciou a publicação de uma excelente obra em dez volumes intitulada "The botanist's repository for new and rare plants".
Na prancha 86 desta coleção, apresentou um belo desenho (infelizmente em preto-e-branco) e a descrição científica do que chamou, respectivamente em latim e inglês, de Eranthemum pulchellum e "Blue-flowered Eranthemum".
Logo a seguir, o autor esclarece a origem da planta. Ela provinha de sementes colhidas e enviadas por William Roxburg (1751-1815), que ficaria alcunhado como o "pai da botânica na Índia". De fato, a localidade típica é citada como "a costa de Coromandel", localizada no sudeste daquele país, à época sob domínio inglês.
Andrews examinou exemplares crescidos na Europa, mais especificamente na estufa quente do Real Jardim Botânico de Kew, e no viveiro de seu sogro. Também previu uma futura popularidade para a espécie, no que acertou em cheio.
A fotografia que abre estas linhas foi tirada esta semana aqui no E-jardim. De fácil manutenção e rápido crescimento, este arbusto aprecia solos com bastante matéria orgânica e pode ser cultivado a pleno sol ou meia sombra. Deve ser mantido sempre bem irrigado (sem encharcamento), como é regra para as acantáceas. A recompensa vem sob a forma de lindas flores tubulares azuis, dispostas em numerosos cachos.
Forte abraço!
Mudas disponíveis em:

Sábado, 30 de Maio de 2009

A versátil sapota-branca

Nas montanhas do México e da Guatemala, cresce um fruto nativo digno de muito mérito, o "zapote blanco".

Sua denominação vulgar deriva do azteca "tzapotl", termo que também designa outras frutas pertencentes a três famílias diferentes: Sapotaceae, Ebenaceae e Rutaceae. Em comum, têm apenas a excelente qualidade das respectivas polpas, tenras e doces.

São exemplos o sapoti (Manilkara zapota) ("chicozapote"), o mamei (Pouteria sapota) ("mamey zapote"), a sapota-preta (Diospyros digyna ("zapote negro"), além evidentemente de nossa eleita para o post de hoje.

A sapota-branca (Casimiroa edulis) é uma rutácea, a ampla família botânica que inclui a laranja, o limão e o vampi (Clausena lansium). Possui casca finíssima, polpa muito macia, sem fibras e suculenta, desprovida de acidez (27% de açúcares, sendo também rica em vitaminas A e C). Comparo aqueles atributos físicos aos do mamão (Carica papaya). Seu sabor, porém, é mais doce que o daquele e, na minha opinião, também superior. Alguns autores o comparam ao "das melhores pêras".

Para melhor apreciar seu paladar, sugiro saboreá-la gelada e cortada em metades, comida às colheradas. Deve-se ter o cuidado de evitar a porção de "carne" muito próxima à parte externa, que possui um gosto aromático similar ao de casca de laranja. Algumas pessoas apreciam adicionar algumas gotas de limão, para dar um toque de acidez.

De dimensões (ca. 7-8 cm de diâmetro) e formato equivalentes aos de um caqui, C. edulis possui relativamente poucas sementes (1-5, dependendo da variedade), que se destacam facilmente da parte comestível. Via de regra, são amarelo-esverdeadas por fora, e de tonalidade amarela bem clara em seu interior.

Uma importante característica que imediatamente a separa de seus parentes cítricos, é a presença de uma substância chamada casimirosina (nas folhas, tronco e sementes), cujas propriedades incluem o poder de baixar a pressão sanguínea.

Em sua região de origem, a sapota-branca é cultivada em altitudes de 600 até 1000 m, onde é muito empregada para o sombreamento de plantações de café.

Adaptou-se bem a regiões frias espalhadas pelo mundo, como a Califórnia nos EUA, e La Mortola, no sul da Itália. Aqui no Brasil, vai muito bem em climas bastante diversos, tanto os mais frios como os da Região Sul e montanhas do Sudeste, quanto os mais quentes tais quais Rio de Janeiro e Espírito Santo ao nível do mar.

Provei frutos produzidos em Silva Jardim e em Quissamã, ambos no litoral norte fluminense, que são absolutamente deliciosos, mostrando a grande versatilidade desta espécie. A sapoteira-branca produz tão bem nestes locais, que mais parece tropical. Não me surpreenderia com notícias de plena adaptação às regiões Norte e Nordeste, muito embora desconheça se já tenha sido testada por aquelas bandas.

Para cultivá-la com sucesso, deve-se proporcionar-lhe um solo bem drenado e adubado, e bastante irrigação na fase juvenil. Quando adulta, é deveras resistente à seca. Uma técnica recomendada é podar o ramo terminal a uma altura de um metro do solo, para que inicie o lançamento de ramos laterais, facilitando futuras colheitas. Seu crescimento é relativamente rápido em climas tropicais, e um pouco mais lento nas regiões mais frias. Pode-se estimar em 5-7 anos o tempo para que inicie a produção.

Para saber mais:
http://www.e-jardim.com/produto_completo.asp?IDProduto=281

Domingo, 24 de Maio de 2009

Visões de jabuticaba-branca

Frutos maduros de jabuticaba-branca (Myrciaria aureana), cuja cor situa-se entre o verde e o branco.



Nos dias 18 e 27/01/2009, dedicamos este espaço à rara jabuticaba "que nunca amadurece", ou melhor, cuja casca jamais se torna escura. No post mais antigo, contamos a história de sua descoberta, desde os primeiros registros em tempos imperiais até os dias de hoje. Já no dia 27/01, apresentamos dados de seu habitat natural.
Ficaram faltando as imagens da fruta madura, lacuna agora preenchida. As fotos acima foram tiradas de uma matriz nossa, que frutifica regularmente desde os quatro anos de idade. Clicando nelas, o quadro se amplia, e pode-se perceber melhor como a superfície dos frutos não é lisa, mas com pequenas cristas que ligam o ápice à base das jabuticabas. Em botânica, diz-se que tais frutos são costados.
Há exemplos análogos de costados tênues ou muito pronunciados. Entre os primeiros está o saboroso cambucá (Plinia edulis), e no segundo caso a conhecidíssima pitanga (Eugenia uniflora). Definitivamente, Myrciaria aureana enquadra-se na mesma situação do cambucá.
Alguns livros dizem que a jabuticaba-branca não seria "branca", mas sim "verde". Particularmente, considero esta afirmação um tanto dúbia, pois quando maduras ficam quase brancas, como mostram as poses acima. Uma tonalidade branco-esverdeada talvez.
O sabor desta espécie é bem diferente das demais jabuticabas (aliás, cada uma destas tem seu sabor próprio, característico). A branca possui uma textura muito macia, assemelhando-se a um toque de seda na língua do degustador. Seu gosto é doce, agradabilíssimo e muito refrescante.
E você, nobre leitor, quer provar e deixar sua opinião?
Mais informações em:

Domingo, 17 de Maio de 2009

Justa homenagem a Amanda Bleher

Vriesea bleheri, rara espécie de bromélia endêmica da Mata Atlântica na Serra dos Órgãos (RJ), cujo nome foi dedicado à alemã Amanda Bleher. Acompanhe um resumo de sua trajetória em prol da flora brasileira neste post.

Amanda Flora Hilda Bleher (1910-1991) nasceu em Frankfurt (Alemanha), filha de um dos pioneiros no cultivo de plantas aquáticas naquele país, Adolf Kiel. Desde muito nova, acompanhava seu pai em excursões de coleta por toda a Europa.
Foi natural que a jovem Amanda virasse uma versão feminina de Indiana Jones daquela época, viajando por todo o mundo em busca de novas espécies de plantas. Logo se tornou a primeira mulher a competir em corridas de motocicletas com homens, vencendo 148 delas na Europa. Também venceu campeonatos de tênis, tênis-de-mesa (vice-campeã mundial), patinação (européia e no gelo), além de ter sido a primeira mulher a voar em avião sem motor!
Na década de 1950, Frau Bleher fez duas viagens à América do Sul, dando especial atenção ao Brasil - país pelo qual iria se apaixonar e viver o resto de sua longa e produtiva vida. No período 1958-1959, acompanhada de quatro filhos pequenos, passou dois anos entre os índios incivilizados de Mato Grosso, fazendo inúmeras descobertas de plantas novas. Suas aventuras nesta fase foram contadas no livro "Iténez, Fluss der Hoffnung" (="Iténez, Rio da Esperança"), uma divertida leitura. Sua venda está disponível no site http://www.aquapress-bleher.com/index.php?option=com_content&task=view&id=127&Itemid=22&lang=pt
Em 1959, fixou-se definitivamente em nosso país, estabelecendo-se no atual Vale das Pedrinhas, em Magé (RJ), onde montou uma maravilhosa coleção de plantas (aquáticas, orquídeas, bromélias e aráceas, principalmente). Durante décadas sua empresa Lotus Osiris Ltda. foi referência no cultivo desses grupos botânicos.
Sob a assinatura de "Lotus Osiris", Amanda escreveu inúmeros artigos contando suas descobertas e aventuras nas selvas brasileiras. No que toca às bromélias, seus textos aparecem no "Journal of the Bromeliad Society", principalmente durante a década de 1970.
Dentro do tema, uma de suas descobertas mais notáveis foi a espécie que ilustra este post, batizada pelos botânicos Roeth e Weber em sua homenagem como Vriesea bleheri.
Trata-se de uma linda bromélia em miniatura, atingindo menos de 15 cm de altura (inflorescência incluída). Suas folhas são estreitas e verde-brilhantes, roxas na face inferior; a inflorescência é de um belo amarelo-canário, com as brácteas dispostas em uma única haste (vide fotos que ilustram estas linhas). Por sua beleza, porte e preferência pela meia-sombra, presta-se de maneira admirável como elemento decorativo para pequenos espaços em jardins e residências. Infelizmente, ainda é pouco conhecida do grande público, estando restrita a poucas coleções botânicas.
Forte abraço!

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

A primeira ubaia a gente nunca esquece!

No dia 27/09/2008, publicamos um texto sobre a ubaia (Eugenia patrisii), fruta amazônica silvestre praticamente desconhecida em cultivo.

Na época, comemoramos a primeira floração e "frutificação" desta interessantíssima mirtácea aqui no E-jardim. Notem o uso de aspas, bem assinalado agora. O que ocorreu foi que aqueles minúsculos frutinhos recém-formados (veja o referido post), assim como muitos outros produzidos nos meses subsequentes, não vingaram, caindo antes que se desenvolvessem adequadamente.

O tempo passou e várias ubaieiras (das quais apenas uma está plantada diretamente no solo) lançaram flores, iniciaram a formação dos frutos e repetiram a queda precoce.

De tanto esperar em vão por uma ubaia madura, acabei deixando de monitorar as arvoretas. Pois bem, hoje pela manhã deparei-me com um belíssimo fruto quase esférico, de cerca de 2,5 cm de diâmetro, coroado por pequenas sépalas no ápice e dependuradas por um longo pedicelo ("cabinho"). Vejam a imagem que ilustra estas linhas!

Aproveito para detalhar o sabor desta enigmática fruta, referido anteriormente apenas como "agridoce, ligeiramente aromático e que agrada muito".

A ubaia possui uma consistência firme, de textura e sabor que muito me lembraram os do jambo-rosa (Syzygium samarangense), um parente distante nativo da Malásia. A polpa da E. patrisii é bastante suculenta e destacada da semente, que por sua vez permanece com alguns fragmentos de polpa aderidos. Seu interior é vermelho-rubi, caso único entre as espécies de eugênias cultivadas.

Enfim, provar minha primeira ubaia foi uma experiência inesquecível.

Forte abraço!