domingo, 24 de agosto de 2008

A misteriosa pitanga-de-cachorro



Após um período em que estive muito envolvido com o desenvolvimento de novos projetos no E-jardim, retorno ao nosso blog já me desculpando com os leitores pela interrupção na atualização dos textos.

No post do dia 25 de maio sobre a princesinha-de-copacabana (Eugenia copacabanensis), listei as mirtáceas de frutos saborosos que vegetavam na restinga de Copacabana. Entre elas estava uma misteriosa fruta que o povo chamava de pitanga ou cambuí-de-cachorro.

O bom e antigo Manuel Pio Corrêa registrou-a em seu tratado (Pio Corrêa, M. 1926. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas. vol. V. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional. 687p.), através de um pequeno verbete no qual informava ser o fruto “baga globosa e achatada, de sabor doce e adstringente”. Naquela época, o nome científico aplicado era Calyptranthes obscura, atualizado em 1981 para Neomitranthes obscura (o gênero Neomitranthes seria criado pelo botânico uruguaio Diego Legrand apenas em 1977).

Sob o nome antigo, o "pai" do Jardim Botânico de São Paulo, Frederico Carlos Hoehne, fez breve menção a nossa enigmática mirtácea em seu ótimo livro sobre frutas brasileiras (Hoehne, F. C. 1946. Frutas Indígenas. São Paulo, Instituto de Botânica, Secret. Agric., Ind. e Com. 88p.), porém pouco acrescentando ao que escrevera Pio-Corrêa. Um outro autor mais moderno (Cruz, G. L. 1985. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira) adicionou mais uma pitada de informações, já usando seu nome científico atual.

Intrigado com a frutinha, passei a investigar seu passado. Aprendi que ela havia sido descrita por Alphonse de Candolle (http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonse_Louis_Pierre_Pyrame_de_Candolle) no ano de 1828, com base em material coletado pelo grande botânico Carl Friedrich Philipp von Martius na vegetação praiana do Rio de Janeiro.

De tanto andar pelo que restou das restingas cariocas, acabei finalmente localizando a almejada pitangueira-de-cachorro. Ela cresce em áreas diretamente expostas ao sol, sobre solo arenoso com algum material orgânico e bem drenado. Em sua companhia vivem outras espécies de eugênias, como a pitangatuba (E. neonitida), a cereja-da-praia (E. punicifolia) e a pitanga-comum (E. uniflora). Também espécies de ceboleira-da-praia (Clusia lanceolata e C. fluminensis), hoje em dia tão cultivadas como plantas ornamentais, algumas bromélias (Aechmea nudicaulis, Neoregelia cruenta, Vriesea neoglutinosa) e o lindo arbusto-trepadeira Paullinia weinmanniaefolia, cujos numerosos frutos intensamente róseo-avermelhados lembram os do conhecido guaraná (Paullinia cupana).

Lá estava Neomitranthes obscura, uma bela planta carregada de graciosos frutos de mais ou menos 1,5 cm, arredondados e multicoloridos (variam do vermelho-intenso ao quase negro, conforme o estágio de maturação). São coroados no ápice por um pequeno vestígio de uma estrutura floral denominada calíptra (ver a foto que ilustra este texto). Possuem casca fina, sabor bastante doce quando maduros, mas com alguma presença de taninos, o que pode desagradar paladares mais sensíveis. Os pássaros e as crianças agradecem e fazem sua festa particular.

Trata-se de um mero arbusto ou arvoreta, cuja altura varia entre 1 e 3 m. Seu tronco é áspero, marrom-acinzentado e descamante em placas. A copa é densa, de formato arredondado a esparramado, com folhagem verde-clara. As folhas, muito espessas e lisas, logo chamam a atenção do observador, tal a intensidade do brilho da face superior. O formato destas é ovado ou elíptico, de extremidade muito pontiaguda, com a nervura central de tonalidade amarelo-clara, contrastando intensamente com o verde das folhas.

São bastante fáceis de cultivar, e devem ser plantadas a pleno sol, em qualquer tipo de terreno bem drenado. Beneficiam-se de uma adubação equilibrada, crescendo mais rapidamente e tornando-se mais viçosas.

Pelo pequeno porte e folhas suculentas, prestam-se muito bem ao plantio em vasos ou jardins no entorno de piscinas e coberturas de apartamentos. São plantas muito resistentes, bonitas e que certamente merecem maior destaque no paisagismo brasileiro.

Forte abraço!

4 comentários:

Carlos Alberto Suárez disse...

Muito interessante seu blog!!
Eu moro na Argentina, perto da fronteira com Bolivia, com uma mata importante. Adoro as frutíferas tropicais e estou coletando novas especies e experimentando-as no cultivo. Desejo intercambio de sementes de Mirtáceas, Anonaceas, etc. no momento tenho Myrcyaria tenella um pequenho arbusto muito bonito que em vasos tem fruta o ano todo.
Atenciosamente
Carlos
viveroforestal@gmail.com

Eduardo Jardim disse...

Olá Carlos!
Que bom que tenha gostado do blog, seja bem-vindo!!
A Myrciaria tenella é sem dúvida uma planta muito bonita e que ocorre em vários Estados do Brasil. Por aqui, ela recebe vários nomes como cambuí (ou camboim) verdadeiro, cambuí-vermelho e até jabuticaba-macia.
Forte abraço!

Antonio disse...

Muito interessante. Só não gostei do nome comum pois desvaloriza a fruta.
Brasil o pais das Myrtaceas.

Eduardo Jardim disse...

Pois é, Antonio. O nome comum é muito antigo, certamente o nome que os índios a chamariam seria muito mais bonito.
Só nas restingas, há uma infinidade de mirtáceas. Descobri que existe mais uma espécie de grumixama, Eugenia neosylvestris, cujos ramos jovens e verso da folha é dourado.