quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Favas de sorvete

Inga edulis é o ingá mais saboroso. A variedade gigante cultivada no E-jardim é originária do Rio Negro (AM).




A família botânica das fabáceas (antigas leguminosas) é uma das mais amplas e de maior importância econômica em todo o mundo, incluindo a soja, o feijão e outros importantes recursos alimentares. Só no Brasil, estima-se que ocorram 175 gêneros e mais de 1500 espécies!
Em termos de fruticultura, o destaque fica por conta do gênero Inga, que compreende cerca de 300 espécies, distribuídas por diversas formações vegetais nas Américas do Sul e Central. A Mata Atlântica e a Amazônia são centros de diversidade para estas plantas, o que as tornou íntimas de nossos índios.
De fato, os ingás são consumidos e cultivados pelo homem há milênios. Ainda hoje constituem um item importante nas feiras livres dos países andinos, centro-americanos e amazônicos. Através dos séculos, algumas espécies foram domesticadas e selecionadas pela excepcional qualidade e disponibilidade de polpa de seus frutos. Foi exatamente o caso de Inga edulis, que ilustra este texto.
Embora esteja amplamente distribuído tanto na Amazônia quanto na Mata Atlântica, fato que talvez se deva à sua disseminação pelos índios, é na primeira região que o ingá-de-metro atinge seu esplendor. Certamente muitos leitores deste blog, moradores da Região Sudeste, já se depararam com ele, em versão miniaturizada.
Comigo ocorreu o oposto. Durante uma viagem ao Rio Negro, a partir de Manaus/AM, quase caí para trás quando vi o tamanho dos ingás-açu comercializados pelos ribeirinhos. Mais ainda: o arilo branco que envolve as sementes (vejam a terceira foto) derretia-se como um néctar na boca, muito doce e de textura aerada, tal qual um sorvete preparado com capricho.
Bem o sabiam os primeiros brasileiros, pois "ingá" em tupi-guarani significa "o que é embebido ou úmido", uma alusão à suculenta polpa da fruta. Aliás, a palavra inglesa que designa a iguaria é "ice cream bean", algo como "favas de sorvete". Hummm....
Para saber mais:

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A popstar de Cachoeiro do Itapemirim

Aechmea orlandiana, espetacular espécie de bromélia descoberta pelo casal Foster no Espírito Santo
O longínquo ano de 1941 foi extremamente generoso com a cidade de Cachoeiro do Itapemirim/ES. Presenteou-lhe com duas estrelas, uma na música e outra na botânica.
Em 19 de abril nascia o mais ilustre cidadão itapemirimense, o rei Roberto Carlos, cantor brasileiro que mais discos vendeu no planeta. Sua carreira, que atingiu o estrelato, acaba de completar 50 anos, comemorados com uma série de shows pelo país.
Naquele mesmo ano, o Dr. Lyman Smith, então a maior autoridade mundial na família Bromeliaceae, publicava a descrição de Aechmea orlandiana, a linda espécie acima que ilustra estas linhas. [Smith, L.B. 1941. Bromeliáceas novas ou interessantes do Brasil. Arq. Bot. Est. São Paulo, 1(3): 53-60, tábs. 64-80].

A coluna de hoje é dedicada aos 70 anos da descoberta de uma das mais belas e populares espécies do gênero Aechmea que existem.
No post do dia 24/07/09, contei um pouco da incrível trajetória de Mulford e Racine Foster, a dupla que popularizou as bromélias na horticultura moderna. Também escrevi que coletaram várias plantas interessantes nos arredores do berço natal de Roberto Carlos.
Pois foi precisamente no dia 8 de junho de 1939 que aconteceu o seguinte fato, descrito no obra "Brazil, orchid of the tropics" (a tradução é nossa): "O grande acontecimento do dia, entretanto, foi a descoberta de uma das mais espetaculares Aechmeas já vistas, cujas folhas eram mosqueadas e pregueadas com um efeito em relevo de manchas escuras sobre um fundo verde-claro. Depois de abrir caminho através de um denso emaranhado de arbustos, Mulford finalmente atingiu um afloramento de rocha praticamente nua, quando subitamente gritou com todas suas forças. A alegria de uma conquista muito ajuda quando a exaustão parece predominar. Neste ponto, nós olhávamos para a penca de bromélias que aqueceria o coração de qualquer pessoa apaixonada por plantas. Mulford não as tocaria até que Racine e nosso ajudante local tivessem chegado ao "ponto sagrado". Esse homem, que havia passado toda sua vida na região e conhecia bem o campo, nunca havia visto uma planta tão formidável. Colhemos poucos exemplares, tomando o cuidado de deixar uma boa quantidade lá. Então passamos a vasculhar as redondezas atrás de outros indivíduos que pudessem apresentar flores ou frutos. Contudo, não logramos sucesso, muito embora esta Aechmea fosse florescer em cultivo um mês depois. Brácteas alaranjadas e flores brancas, que combinação de cores! As cores da cidade que adotamos, Orlando, na Flórida. Sete meses mais tarde, depois de muitos estudos, o Dr. Lyman Smith se assegurou de que se tratava de uma espécie absolutamente inédita, ficando tão entusiasmado quanto nós, muito embora jamais tivesse visto a planta viva".
A partir destes exemplares, a conterrânea do rei foi multiplicada inicialmente pelos Fosters e depois por aficcionados em plantas ornamentais no mundo inteiro. Nestes quase 70 anos de cultivo, foram tantas emoções...
Mais informações em:

sábado, 11 de julho de 2009

Gol de placa


Neoregelia ZICO, híbrido de cores rubro-negras, criado pelo cultivador Rafael Faria em homenagem a Arthur Antunes Coimbra, ídolo maior da Nação Rubro-Negra.

A expressão "gol de placa" surgiu em decorrência de um belo tento assinalado por Pelé em um jogo contra o Fluminense no início da década de 1960. Na oportunidade, o atacante santista arrancou do meio-de-campo, driblando diversos atletas tricolores antes de marcar o gol. Um jovem jornalista da época, de tão empolgado com a plasticidade da jogada, mandou confeccionar uma placa imortalizando o feito. Daí em diante, a expressão passou a definir aqueles golaços que fazem a torcida vibrar.

Pois foi com um toque de gênio que o flamenguista Rafael batizou de "Zico" o híbrido de Neoregelia oriundo de um de seus cruzamentos experimentais. A planta desenvolveu uma incomum coloração vermelho e preta nas lâminas foliares (veja a foto que ilustra este texto).
Divulgada no dia 25 de junho pelo jornal carioca "O Globo", a notícia logo se espalhou, causando furor no noticiário esportivo. Inúmeras pessoas, normalmente alheias à horticultura e ao mundo das plantas, logo tiveram seu interesse desperto.

Gol de placa de Rafael.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

El mamey colorado!

Popol Vuh é o livro sagrado da civilização maia. Algo como a Bíblia daquela outrora florescente cultura centro-americana. Entre outras assertivas, traz a de que as sapotas (tzapotl) são frutas tão antigas quanto a criação do homem.

Sapotas eram também os pomos que deliciavam os grandes senhores maias, antes da chegada dos conquistadores espanhóis. Aplicavam, de uma maneira geral, o termo a diversos frutos carnosos e doces que cresciam em seus domínios.

Entre estes, sobressaía o delicioso mamei ou sapota-mamei ("mamey colorado" ou "mamey zapote" em espanhol). Por muitos considerado a verdadeira "sapota dos maias", será o tema de nosso post de hoje.

Aliás, contam os historiadores que foram mameis que salvaram o exército espanhol de inanição, quando em campanha de conquista das terras meso-americanas.

Sua casca marrom e áspera como couro cru, de pequena espessura, encerra uma polpa cremosa e macia, de linda tonalidade vermelho-róseo-salmão. Em seu interior, há único caroço, escuro e muito brilhante, contrastando fortemente com o tom da carne, conforme mostra a imagem que acompanha estas linhas.
Esta semente também é muito valorizada, pois torrada e moída é misturada a chocolate, açúcar e canela, em uma bebida conhecida como "pozol" em Oaxaca, no México. Na Nicarágua prepara-se outra denominada "pinolillo", de grande popularidade e formulação similar.
Degustar um mamei é uma experiência única. Cortado ao meio e comido às colheradas, deixa a boca repleta de uma doçura persistente. Algumas pessoas gostam de equilibrar com algumas gotas de limão, como se faz com o mamão-papaia e o abacate. Já outros preferem reservar a iguaria para o preparo de requintadas sobremesas (há muitas receitas!). Não importa, um apreciador de frutas não pode deixar de experimentar uma sapota-mamei...

No Brasil, esta fruta foi introduzida em 1985, por iniciativa do pesquisador Luiz Carlos Donadio [Donadio, L. C. et al. 1998. Frutas Exóticas. Jaboticabal, Funep. 279 p.], que através de um convênio entre a FCAV-UNESP e o Cenargen-Embrapa importou matrizes da Flórida. Adaptou-se muito bem a uma vasta diversidade de climas tupiniquins, desde os tropicais até os subtropicais, como São Paulo e alhures.
E em seu pomar, já há um mameizeiro crescendo?
Mais informações e mudas disponíveis em:

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Billbergia iridifolia, uma jóia do Espírito Santo


No início dos anos 90 do século XX, eu costumava percorrer lojas de livros usados (os chamados "sebos") à procura de boa literatura. Minha seção favorita era a de história natural, particularmente botânica. Foi assim que achei os volumes originais do "Dicionário das Plantas Úteis do Brasil", de Manuel Pio Corrêa, entre outras preciosidades.
Em uma dessas buscas deparei-me com um livro de capa dura azul, publicado em 1945, trazendo o curioso título de "Brazil: Orchid of the Tropics". Versava sobre as peripécias de um casal de americanos, Mulford Bateman Foster e Racine Sarasy Foster, coletando plantas (principalmente bromélias) no Brasil, entre 1939 e 1940. Mais: a publicação ostentava cerca de 150 fotos (a maioria em preto-e-branco) tiradas pelos autores durante sua trajetória.
Desnecessário dizer que a adquiri de imediato, e logo pus-me a devorá-la. Fiquei encantado com o mundo novo que o casal Foster me revelava, em palavras e imagens, de plantas espetaculares que eu jamais imaginava existir nas florestas e campos do meu próprio país.
Em mais de 45 capítulos curtos, os autores discorrem sobre diferentes ecossistemas nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso. Colheram, neste percurso, muito mais espécies novas de bromélias que qualquer outro coletor antes deles - aí incluídos nomes sagrados como os de Glaziou, Ule, Riedel, Dusén, Gardner e Burchell, além do próprio Martius (em cuja viagem, de 1817 a 1821, foram descobertas 39 novas espécies de Bromeliaceae).
O entusiasmo que os autores passam em sua narrativa contagia qualquer leitor com afinidade por plantas. Basta dizer que Mulford, um dos primeiros arquitetos-paisagistas da Flórida, fundou em meados do século XX a "Bromeliad Society International", e é considerado o "pai das bromélias" na horticultura moderna. Além das últimas, os Fosters dedicaram especial atenção aos Hippeastrum (açucenas), gesneriáceas (Sinningia e gêneros próximos), cactáceas epífitas (Rhipsalis, Hatiora e outras), e em menor profundidade às orquídeas e palmeiras.
No capítulo "Espírito Santo, State of the Holy Ghost", mencionam o encontro nos arredores de Cachoeiro do Itapemirim de doze espécies de bromélias, entre elas "a lovely new variety of Billbergia, B. iridifolia var. concolor". Embora tivesse sido descoberta pelo Príncipe Wied-Neuwied e descrita pelos botânicos Nees e Martius em 1823, esta espécie era antes dos Fosters desconhecida em cultivo.
Foi uma grata surpresa deparar-me, no início de 2007, com esta jóia botânica nas florestas do baixo Rio Doce, em Linhares (ES). Apresento aos leitores as vibrantes cores situadas entre o rosa-choque e o vermelho das brácteas desta belíssima espécie.
Forte abraço!

domingo, 7 de junho de 2009

Azul nos trópicos

O camarão-azul (Eranthemum pulchellum) é um dos poucos arbustos que proporcionam abundantes flores de coloração azul-genciana em regiões tropicais

A família Acanthaceae inclui alguns dos mais belos arbustos floríferos do mundo. São plantas de rápido crescimento, em geral rústicas, e que se prestam de forma admirável para cultivo em canteiros, bordaduras ao longo de muros e mesmo como pontos de destaque em jardins.
Tome-se o exemplo dos onipresentes "camarões-de-jardim", Justicia brandegeana (camarão-vermelho) e Pachystachys lutea (camarão-amarelo), tão usados pelos paisagistas hoje em dia. Cores vibrantes, como as precedentes vermelha e amarela, são lugares comuns em climas quentes. Nestas condições, há uma recorrente dificuldade em encontrar-se elementos no tom azul. Nosso post de hoje destaca uma honrosa exceção, o camarão-azul.
Esta espécie de singular beleza foi descrita em 1797 por um botânico inglês de nome Henry Charles Andrews. Com habilidades múltiplas que incluíam talento botânico e dom artístico, e recém-casado com a filha de um famoso viveirista em Hammersmith (subúrbio de Londres), Andrews iniciou a publicação de uma excelente obra em dez volumes intitulada "The botanist's repository for new and rare plants".
Na prancha 86 desta coleção, apresentou um belo desenho (infelizmente em preto-e-branco) e a descrição científica do que chamou, respectivamente em latim e inglês, de Eranthemum pulchellum e "Blue-flowered Eranthemum".
Logo a seguir, o autor esclarece a origem da planta. Ela provinha de sementes colhidas e enviadas por William Roxburg (1751-1815), que ficaria alcunhado como o "pai da botânica na Índia". De fato, a localidade típica é citada como "a costa de Coromandel", localizada no sudeste daquele país, à época sob domínio inglês.
Andrews examinou exemplares crescidos na Europa, mais especificamente na estufa quente do Real Jardim Botânico de Kew, e no viveiro de seu sogro. Também previu uma futura popularidade para a espécie, no que acertou em cheio.
A fotografia que abre estas linhas foi tirada esta semana aqui no E-jardim. De fácil manutenção e rápido crescimento, este arbusto aprecia solos com bastante matéria orgânica e pode ser cultivado a pleno sol ou meia sombra. Deve ser mantido sempre bem irrigado (sem encharcamento), como é regra para as acantáceas. A recompensa vem sob a forma de lindas flores tubulares azuis, dispostas em numerosos cachos.
Forte abraço!
Mudas disponíveis em:

sábado, 30 de maio de 2009

A versátil sapota-branca

Nas montanhas do México e da Guatemala, cresce um fruto nativo digno de muito mérito, o "zapote blanco".

Sua denominação vulgar deriva do azteca "tzapotl", termo que também designa outras frutas pertencentes a três famílias diferentes: Sapotaceae, Ebenaceae e Rutaceae. Em comum, têm apenas a excelente qualidade das respectivas polpas, tenras e doces.

São exemplos o sapoti (Manilkara zapota) ("chicozapote"), o mamei (Pouteria sapota) ("mamey zapote"), a sapota-preta (Diospyros digyna ("zapote negro"), além evidentemente de nossa eleita para o post de hoje.

A sapota-branca (Casimiroa edulis) é uma rutácea, a ampla família botânica que inclui a laranja, o limão e o vampi (Clausena lansium). Possui casca finíssima, polpa muito macia, sem fibras e suculenta, desprovida de acidez (27% de açúcares, sendo também rica em vitaminas A e C). Comparo aqueles atributos físicos aos do mamão (Carica papaya). Seu sabor, porém, é mais doce que o daquele e, na minha opinião, também superior. Alguns autores o comparam ao "das melhores pêras".

Para melhor apreciar seu paladar, sugiro saboreá-la gelada e cortada em metades, comida às colheradas. Deve-se ter o cuidado de evitar a porção de "carne" muito próxima à parte externa, que possui um gosto aromático similar ao de casca de laranja. Algumas pessoas apreciam adicionar algumas gotas de limão, para dar um toque de acidez.

De dimensões (ca. 7-8 cm de diâmetro) e formato equivalentes aos de um caqui, C. edulis possui relativamente poucas sementes (1-5, dependendo da variedade), que se destacam facilmente da parte comestível. Via de regra, são amarelo-esverdeadas por fora, e de tonalidade amarela bem clara em seu interior.

Uma importante característica que imediatamente a separa de seus parentes cítricos, é a presença de uma substância chamada casimirosina (nas folhas, tronco e sementes), cujas propriedades incluem o poder de baixar a pressão sanguínea.

Em sua região de origem, a sapota-branca é cultivada em altitudes de 600 até 1000 m, onde é muito empregada para o sombreamento de plantações de café.

Adaptou-se bem a regiões frias espalhadas pelo mundo, como a Califórnia nos EUA, e La Mortola, no sul da Itália. Aqui no Brasil, vai muito bem em climas bastante diversos, tanto os mais frios como os da Região Sul e montanhas do Sudeste, quanto os mais quentes tais quais Rio de Janeiro e Espírito Santo ao nível do mar.

Provei frutos produzidos em Silva Jardim e em Quissamã, ambos no litoral norte fluminense, que são absolutamente deliciosos, mostrando a grande versatilidade desta espécie. A sapoteira-branca produz tão bem nestes locais, que mais parece tropical. Não me surpreenderia com notícias de plena adaptação às regiões Norte e Nordeste, muito embora desconheça se já tenha sido testada por aquelas bandas.

Para cultivá-la com sucesso, deve-se proporcionar-lhe um solo bem drenado e adubado, e bastante irrigação na fase juvenil. Quando adulta, é deveras resistente à seca. Uma técnica recomendada é podar o ramo terminal a uma altura de um metro do solo, para que inicie o lançamento de ramos laterais, facilitando futuras colheitas. Seu crescimento é relativamente rápido em climas tropicais, e um pouco mais lento nas regiões mais frias. Pode-se estimar em 5-7 anos o tempo para que inicie a produção.

Para saber mais:
http://www.e-jardim.com/produto_completo.asp?IDProduto=281